Rigor financeiro
Em janeiro de 2012 a Federação de Ginástica de Portugal (FGP) tinha cerca de 1 000 000 € (um milhão de euros) de dívida de curto e médio prazo.
Como se tal não fosse suficientemente mau, tinha sido efetuada cerca de um ano antes a integração das disciplinas gímnicas que faziam parte da Federação Portuguesa de Trampolins e Desportos Acrobáticos (FPTDA) na FGP, num processo que alguém um dia qualificou como a "junção de duas falências numa só de maior dimensão".
Chegados a 2020 já ninguém se lembra desses tempos (alguns fazem por não se lembrar) mas, sendo certo que a saúde financeira da FGP é hoje em dia evidente, a sua destruição pode muito facilmente ser causada por seis meses ou um ano de gestão ruinosa.
Como se chegou aqui e porque é que as conquistas efetuadas podem ser facilmente destruidas é o que explicarei a seguir.
Em 2012 o dilema era este: "Como manter e desejavelmente aumentar a atividade, designadamente ao nível do Alto Rendimento e também ao nível do desenvolvimento da prática desportiva num cenário em que o financiamento público da Ginástica era cerca de metade da soma do financimaneto público à FPTDA e FGP em anos anteriores à reintegração das disciplinas de Ginástica de Trampolins e Ginástica Acrobática na FGP e as dívidas de curto e médio prazo da FGP ascendem a cerca de 1 000 000€ (um milhão de euros)?"
Também não ajudava a existência de uma cultura organizacional que construía orçamentos com base em necessidades financeiras sem considerar os recursos (planos de tesouraria), havendo também mecanismos de controlo da despesa muito frágeis e um muito fraco retorno às empresas e instituições parceiras.
Mas não se pense que o rigor financeiro é apenas uma questão de "deve e haver", de simples aritmética. É muito mais do que isso como se verá.
Foram implementados de imediato alguns ajustes que permitiram ir mantendo a "cabeça à tona da água", pedido crédito bancário a muito custo conseguido, dado o historial à data da FGP ao nível financeiro e iniciou de imediato um período de reflexão no seio da Direção da FGP mas também junto da comunidade gímnica que conduziu à criação, em maio de 2013, de um documento que compilou uma série de elementos estratégicos para a sustentabilidde da Ginástica portuguesa no quadriénio respetivo. Esse documento partiu de uma análise S.W.O.T. da em várias dimensões, traçou um "retrato" e a partir daí definiu objetivos de sustentabilidade e medidas associadas com vários cenários nalguns casos. As medidas incidiam em três dimensões: Administrativa, Desportiva e Financeira.
Relativamente à dimensão financeira foram considerados os seguintes princípios e tomadas as seguintes medidas:
- Nos anos em que a FGP (anteriormente a 2012) conseguiu equilíbrio financeiro, fê-lo sempre à custa de receitas extraordinárias. Esse equilíbrio financeiro deve porvir de receitas ordinárias
- Reformulação das taxas de filiação base numa elasticidade moderada/baixa e num crescimento nulo de filiados (como se viu depois esta assunção, como convém era muito conservadora).
- Reformulação das taxas de participação em competições e eventos com numa elasticidade próxima de 1)
- Manutenção das entradas pagas nos eventos FGP reforçando a política de redistribuição de receitas com entidades coorganizadoras.
- Renegociar seguros por forma a obter produtos mais baratos, sempre adequados às necessidades.
- Tendo como objetivos baixar prémios e franquias.
- Todos os prémios, incluindo aqueles que não eram revelados publicamente para permitirem a fixação de taxação autónoma por parte dos clubes serão divulgadas no manual de filiação e refiliação numa perspetiva de cativar mais pessoas a subscrever o seguro básico e o seguro de competição da FGP.
- Nível de receitas extraordinárias deve permitir o saneamento financeiro progressivo e o atingir de patamares compatíveis com investimentos estratégicos
- Manutenção do ritmo organizativo de grandes eventos internacionais
- Continuação da organização de um mínimo de 5 etapas de taças do mundo (1 por disciplina em que existe circuito);
- Campeonato da Europa de ACRO em 2013 em Odivelas
- Campeonato da Europa de TRA em 2014 em Guimarães;
- Em estudo apresentação de candidatura ao Campeonato da Europa de AER em 2015
- Apresentada candidatura ao Festival Golden Age 2016 no Funchal
- Criação de eventos nacionais com formatos mais apelativos que possam aproximar o público em geral da Ginástica
- Espetáculo flic-flac
- Espetáculos gímnicos de alto perfil através de situações de competição formal com regulamentos adaptados ou situações informais de “despique” sempre com grupos de ginastas muito restritos e selecionados entre os melhores ginastas das seleções nacionais
- Intensificar os esforços de angariação de patrocínios em dinheiro e em serviços
- Intensificar a procura de parcerias locais para projetos específicos e para o cartão amigos da Ginástica
- Continuação de candidaturas a fundos europeus quando possível e a fundos promovidos por instituições privadas
- Criação da marca FGP com produtos associados apetecíveis para a comunidade e público em geral
Por volta do final do ano de 2018 deixou de ser necessário continuar a haver um foco na dívida por a mesma ser inexistente e a FGP deixou de ter necessidade de recorrer a créditos ou contas caucionadas nos bancos.
Claro está que o factor decisivo do sucesso neste processo não foi o planeamento (embora tenha sido o ponto de partida) mas sim a execução. E para essa execução a direção financeira da FGP desenhou um conjunto de procedimentos relativos ao controle da execução orçamental, à modernização da estrutura administrativa e financeira e à monitorização dos fluxos financeiros que como se vê nos dias que correm resultou em pleno. Para isto toda a estrutura da FGP teve que contribuir. Desde logo os serviços administrativos e financeiros mas também, de uma forma muito intensa, toda a Direção Técnica Nacional que atingiu, nos dias que correm, um grau de proficiência muito elevado no plano e controlo de fluxos financeiros fator crucial para o sucesso dos macanismos dado o volume de recursos financeiros com que lidam anualmente.
Hoje em dia a FGP consegue gerir o dia a dia e ainda pensar estraegicamente ao nível dos investimentos e tem um grau de autonomia relativamente ao financiamento público cada vez maior (cerca de 70% atualmente)
Mas atenção! Nem o trabalho está fechado nem se pode dizer que haja ausência de riscos. Basta que uma qualuqer gestão da FGP desvalorize o caminho até aqui percorrido ou os instrumentos desenhados para que, como anteriormente afirmei, em seis meses a um ano, a FGP volte a estar numa situação muito complicada ao nível financeiro.
Pessoalmente espero que esta minha afirmação nunca possa ser comprovada.

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