domingo, 10 de maio de 2020

A insustentável precariedade do desconfinamento


Só os mais distraídos pensariam que desconfinar seria tão fácil como confinar.


Confinar foi fácil. O medo é um excelente aliado de quem se propõe convencer os outros de que ficar em casa é a atitude mais adequada. E, portanto, cá como lá fora, as pessoas ficaram em casa. E, no geral, fizeram bem. É verdade que às vezes o fizeram sem qualquer espécie de racionalidade. Por exemplo: dar um passeio higiénico às 08h00 quando ninguém está na rua, alguma vez foi um comportamento de risco, pondo em causa a saúde própria ou dos outros? Quer se seja novo ou velho lesto ou trôpego? Está se vendo com facilidade que não. A malta cumpriu e ficou em casa. Nem todos, é verdade, mas a esmagadora maioria. Resultado: os ecrãs passaram a ser o centro da nossa convivialidade; os velhos deprimiram; a economia definhou; a miséria grassou.

No momento em que se começa a "desconfinar" surgem todo o tipo de reações. Os que cairam na miséria buscam um último fôlego que lhes permita retomar uma dignidade perdida; a ânsia de ar livre levou as pessoas ao cheiro do mar, do campo; a resistência ao regresso de uma rotina mais sofrida contra o cómodo trabalho no lar; um pesado sentimento coletivo de incertezas do que nos espera tomou conta de todos e cada um num frenesi de regras a cumprir, precauções a tomar, o receio do já famoso "novo normal" que ninguém sabe verdadeiramente o que vai ser.

Que identidade vamos descobrir na retoma das nossas atividades? Que formas de estar com outros, de respeitar (ou não) os outros, que prazeres vamos reencontrar ou descobrir? Que hábitos ganhar ou perder? Não sei!

Ao observar a forma como vai sendo feito o "desconfinamento" noto dois grandes sentimentos coletivos: receio e resposabilidade. Se concordo com a forma como isto está a ser feito? No essencial sim. Se há mensagens contraditórias que estão a ser dadas? Seguramente! E essas contradições poderão ter graves consequências no futuro? Estou convicto que sim e esperançado que não.

Dois exemplos: A partir do dia 18 de maio os restaurante voltarão a abrir com restrições obviamente necessárias, os supermercados sempre estiveram abertos porque precisamos de comer, Claro! Mas a atividade desportiva ao ar livre passou a ser permitida (que conceito mais estranho) em grupos de, no máximo cinco pessoas quando supervisionada, e duas pessoas sem supervisão. As creches vão reabrir, os cabeleireiros já reabriram, as lojas até 200m2 também mas a prática desportiva nos clubes e ginásios em instalações muito mais bem apetrechadas na sua esmagadora maioria, para lidar com o distanciamento social e as necessárias normas de higiene nem sequer mereceram até agora menção oficial.

Mensagens que passam: é mais perigoso praticar exercício físico ou atividade desportiva ao ar livre do que ir para dentro de um hipermercado; é mais perigoso praticar exercício físico ou atividade desportiva num clube ou ginásio do que ir a um restaurante ou a um cabeleireiro.

Será? Não me parece que, para além da evidência técnica e científica, até o simples bom senso resista a essa tese!

E continuam fechados (trancados!) muitos jardins e espaços (amplos) de lazer propriedade das Câmaras Municipais. Em nome de quê? Da saúde pública? Ora... do medo. Unica e exclusivamente reféns do medo!


Quem perde? Todos!

domingo, 3 de maio de 2020

Máscaras




O uso de máscara é desde há muito tempo cultural em muitos países do Oriente.

Para nós, no Ocidente, e particularmente em Portugal é um costume que não nos pertencia até chegar a COVID-19.

Primeiro não adiantava de nada. "Até podia dar uma falsa sensação de segurança"

Depois, pouco a pouco, pé ante pé, chegou-se ao dia de hoje em que o uso de máscara passa a ser obrigatório em espaços fechados, designadamente estabelecimentos comerciais e transportes públicos.

Ontem, recebi um SMS de uma grande superfície comercial informando que a partir de hoje só posso entrar no estabalecimento de máscara. Ou seja. Tenho duas opções: levo máscara e entro e compro, ou não levo e não entro. (Devo dizer que isso para mim já não é um transtorno há cerca de um mês e meio).

Nos transportes públicos, por seu lado, se alguém não cumprir pode ter que pagar uma multa entre 120€ e 350€.

Isto deixa-me confuso. Será que a razão da obrigatoriedade de uso de máscaras não tem que ver com a proteção de si próprio e dos outros em relação à COVID-19?

Será que ouvi mal ou esta é uma doença que, apesar de na maioria dos casos não ter sintomas ou estes serem ligeiros, pode matar?

Então que quer dizer pode ter que pagar uma multa? quando é tem que pagar e quando é que não paga? Quem decide?

Por outro lado, numa matéria em que uso da máscara ou não, no limite, pode ter como consequência a minha morte ou de alguém a quem eu possa infetar, aplica-se uma multa? Não se veda o acesso sem máscara?

Poderíamos no limite dizer aqui que o valor da vida nos dias de hoje pode  ser entre 120€ e 350€? E pode ser 0€?

Fiquei a pensar...

sábado, 2 de maio de 2020

Confederação do quê do quê???


No passado dia 23 de abril, a Confederação do Desporto de Portugal promoveu uma reunião por videoconferência para a qual convidou todas as federações desportivas, destinada a analisar a situação atual do Desporto em Portugal em tempos de pandemia COVID-19. Muito bem! Foi preciso uma pandemia!

Mas... pensaram todos ou quase todos. Às vezes há males que vêm por bem e mais vale tarde que nunca.

Para essa reunião a CDP levou um extenso caderno reinvidicativo que colocou à consideração das mais de 40 federações presentes e que recebeu sem exceção ampla aprovação e até, nalguns casos, unanimidade.

Desse caderno reinvidicativo constavam tanto reinvidicações relativas ao impacto da COVID-19, como reinvidicações mais antigas sem nenhuma ligação com a situação atual. Desse caderno não fazia parte aquele que é um dos escândalos do financiamento público ao Desporto que é a distribuição dos proveitos das apostas desportivas online, tendo um leque muito significativo de federações presentes referido que este seria o momento ideal para dar equidade a essa distribuição promovendo assim maior justiça e uma afirmação de solidariedade que se impõe. 

Para além disso várias federações referiram que a extensão do caderno reinvidicativo poderia ser a sua maior fraqueza uma vez que a dispersão de assuntos não favorecia o foco na apreciação de algumas medidas prementes no tempo que vivemos e que poderiam ser assim prejudicadas na sua análise por parte do Governo.

Alguns dias mais tarde, no dia 28 de abril, foi realizada uma reunião entre o Primeiro Ministro, o Presidente da Confederação do Desporto de Portugal, o Presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) e o Presidente do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) para análise situação atual do Desporto e desenho de medidas (?)

Do caderno reinvidicativo que a CDP levou a essa reunião nem uma palavra.

Nos dias seguintes, o COP e o CPP enviaram a todas as federações documentos com informações sobre o decorrer da reunião e das propostas apresentadas.

Da parte da CDP um comunicado lacónico no sítio Internet onde se afirma que o Presidente da CDP "teve a oportunidade de cooperar e contribuir para a criação de estratégias que visem a retoma da atividade desportiva em Portugal". Sem mais!


Sem grandes explicações, com total ausência de identificação dos problemas levantados ou das soluções propostas!

Desconhece-se se a CDP abordou o tema da distribuição dos proveitos das apostas desportivas online, sendo que sabemos que o Comité Olímpico de Portugal e o Comité Paralímpico de Portugal o fizeram.

A conclusão lógica é de que a denominada CDP, para tristeza e prejuízo do Desporto português, neste momento simplesmente não existe, e de que a reunião promovida no dia 23 não foi mais do que um elemento de folclore com uma coreografia titubeante, que maior desígnio não teve do que, mais uma vez, atirar areia para os olhos das federações. Mais uma vez!

Portanto estamos a falar da Confederação do quê do quê?