domingo, 9 de novembro de 2025

A insustentável leveza do dinheiro (e da paciência) dos outros.

 


A Ginástica merece melhor


Quando, no passado dia 03-11-2025, saiu a decisão do Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), relativa à impugnação das eleições da Federação de Ginástica de Portugal (FGP) realizadas em janeiro deste ano, não houve nenhuma surpresa reltivamente à decisão final de mandar repetir as eleições por não terem respeitado a Lei. A surpresa reside apenas na circunstância de ter sido necessário dez meses(!) para esta ser produzida. Os motivos de tal demora, só o TAD saberá, mas que houve múltiplas tentativas de atrasar o processo, isso é sobejamente conhecido. Com as últimas audições a terem sido realizadas em junho o que terá sucedido para ter sido necessário esperar mais cinco meses para ser conhecido o acordão? Conhecendo a forma como o TAD decide e a composição do colégio para cada caso a apreciar não é difícil, lendo o texto desse acórdão perceber o que terá acontecido.


Mas isso não é o mais importante.


Após ter lido o acórdão o que pensei foi: 1. Não seria de esperar outra decisão; 2. Sendo os dirigentes da FGP pessoas de bem, aguarda-se marcação de eleições o mais rapidamente possível.


Fácil demais! A primeira coisa que aconteceu foi a FGP ter tentado evitar a publicitação do acórdão, tendo tal deriva merecido despacho imediato de inconstitucionalidade (por unanimidade).


Mas, porque é que a FPG não quereria que o acórdão fosse publicitado? Não parece ser uma atitude muito democrática, pois não?


Ato contínuo, sai um comunicado da FGP a informar que não só não aceita a decisão do TAD, como vai recorrer, se necessário até ao Supremo.


Sabendo-se pela natureza dos factos em causa que tais recursos, a existirem, terão todos o mesmo desfecho do acordão do TAD, a intenção só pode ser a de protelar e manter o poder às custas do dinheiro da Ginástica. Sim, porque não são os dirigentes da FGP que pagam, ao contrário do demandante da ação, os honorários das sociedades de advogados que contrataram (A FGP terá contratado a sociedade de Rogério Alves! - Quanto estará a custar?) nem as custas de tribunal, nem os recursos. É a Ginástica e, parcialmente todos nós, sendo uma federação com Utilidade Pública Desportiva que recebe dinheiro do Estado.


A este propósito, não se percebe como é que o Secretário de Estado do Desporto e Juventude (SEDJ), perante esta pouca vergonha ainda não deu um murro na mesa e pôs na ordem quem anda a tentar instrumentalizar uma federação desportiva que tem delegação de competências por parte do Estado. Aguardemos.


Há ainda um facto muito importante: É que eventuais recursos efetuados com o dinheiro da Ginástica (não dos recorrentes Presidente da Mesa da Assembleia Geral e Presidente da FGP) não suspendem a decisão do TAD e, portanto, se não forem marcadas eleições até 18 de novembro a FGP incorre em desrespeito da decisão de um tribunal e isso pode levar, inclusivamente à suspensão da Utilidade Pública Desportiva. A Ginástica merece melhor!


Fecho  com uma questão. Se o atual Presidente da FGP diz que as eleições decorreram de forma perfeitamente legal e que o resultado foi uma vitória sua, não deveria ter nada a temer com a sua repetição. Estou certo ou errado?


Enquanto antigo Presidente da FGP  e membro das autoridades da Federação Internacional de Ginástica (FIG) sinto-me profundamente indignado e envergonhado perante o que se está a passar e, por um lado peço a todos os que gostam de Ginástica que tenham esperança que melhores dias virão e, por outro, ao atual Presidente da FGP que tenha a sensatez de não gastar o dinheiro que não é dele para defender interesses pessoais e marque eleições o mais rapidamente possível. O resultado dessas eleições será certamente respeitado por todos. A situação atual não merece o respeito de ninguém!


Sei que tudo isto é extenso (incluindo este meu texto) e deprimente mas quem se interessa pela Ginástica não pode deixar de ler.


Acórdão do TAD

Decisão sobre requerimento para não publicitação do acórdão do TAD

Comunicado da Direção da FGP


quinta-feira, 19 de maio de 2022

Feira na ONU

 



Visito frequentemente o disco de 1981 "Se cá nevasse" dos Salada de Frutas. É uma peça de boa música portuguesa do princípio ao fim. 


Não me canso. Sei tudo de cor.


Musicalmente extraordinário e socialmente interventivo é um prazer do primeiro ao último segundo.


Ao ouvir hoje, mais uma vez, a música "Feira da ONU", pareceu-me que esta canção, com mais de 40 anos, não podia ser mais atual. Ora vejam lá se não acham?


Feira da ONU


domingo, 29 de agosto de 2021

Evolução de resultados desportivos

 



Os dez anos de atividade gímnica que decorreram entre 2010 e 2019 foram recheados de eventos significantes para a Ginástica portuguesa e mostram resultados desportivos que muito orgulham todos quantos se interessam por Ginástica mas que, até à data, nunca foram alvo de uma análise  técnica sistematizada com base em comparações internacionais.

Juntamente com um grupo de pessoas interessadas pela modalidade levei a cabo um dos ângulos de análise possíveis com base em determinados pressupostos que adiante explicarei e que mostram, em meu entender com clareza, não só o que foi a evolução das várias disciplinas da Ginástica nesses 10 anos, mas também a importância que análises deste tipo podem ter na definição e na monitorização das políticas gímnicas e no apoio às decisões que os gestores desportivos nos seus diversos níveis de intervenção têm que tomar, seja ao nível dos investimentos, seja na definição de programas desportivos para a excelência ou para o fomento desportivo.

Começo por dizer que todos os resultados desportivos considerados (para já apenas Campeonatos do Mundo e Campeonatos da Europa de Seniores) estão disponíveis para consulta pública em diversos sítios Internet sem ser necessário qualquer tipo de credenciais especiais.

A saber:

Federação de Ginástica de Portugal             www.fgp-ginastica.pt/resultados
European Gymnastics                                www.europeangymnastics.com
Fédération Internationale de Gymnastique   www.fig-gymnastics.com
Gymmedia                                                www.gymmedia.com
Sport Acrobatics Info                                 www.sportsacrobatics.info/results/rlist.htm
Gymnastics Results                                   http://gymnasticsresults.com

Foi adotado um sistema que atribui uma pontuação a cada resultado e que permite qualquer tipo de comparação quer esta seja interna à disciplina ou interdisciplinar (embora não seja esse o objetivo deste estudo) independentemente da densidade de cada competição (número de países e de ginastas ou pares/grupos participantes).

Para cada resultado desportivo é estabelecida primeiramente uma pontuação que é inversa ao resultado (p.ex: 1º lugar com 10 participantes, 10 pontos, 2º lugar 9 pontos... 10º lugar 1 ponto) e seguidamente essa pontuação é multiplicada pela divisão de 100 pelo número de participantes. No exemplo anterior o 1º lugar terá uma pontuação de 100 pontos, o 2º lugar 90 pontos, etc.. 

Exemplo para uma competição com 245 participantes:

1º lugar= 245*(100/245)=100 pontos
2º lugar= 244*(100/245)=99,59 pontos
...
245º lugar=1*(100/245)=0,41 pontos

Neste texto mostrarei uma série de gráficos que correspondem à análise dos dados recolhidos (se algum leitor estiver interessado em obter os dados recolhidos pode contactar-me explicando o motivo pelo qual deseja obtê-los)

Nesses gráficos podemos observar tendências que correspondem à evolução da competitividade internacional de cada disciplina.

O Teamgym não foi incluído nesta análise devido à ainda escassez de competições (apenas 3 no período em causa).

Na Ginástica de Trampolins foram consideradas todas as especialidades sem distinção da especialidade olímpica (trampolim individual) das outras.

Foi sempre considerado o melhor resultado em cada competição independentemente da fase em que foi obtido (qualificações ou finais). Assim, por exemplo se um ginasta obteve o segundo lugar nas qualificações e o sexto na final o resultado considerado para este efeito foi o segundo lugar.

Neste texto centrar-nos-emos na evolução do total anual de pontos, no número médio de países participantes e na média de pontos por resultado.

Como já anteriormente explicado esta é apenas uma análise de muitas que se julga deveriam ser efetuadas para melhor compreendermos a evolução da Ginástica portuguesa e, sobretudo, melhor projetarmos o futuro.

Boas análises!

Evolução do total anual das diversas disciplinas








Observando as linhas de tendência das várias disciplinas, facilmente se percebe uma tendência crescente em todas com exceção da Ginástica Artística Masculina que tem sinal inverso, sendo a tendência mais acentuada claramente a da Ginástica Rítmica no período analisado o que não surpreende dada a ausência de participação ao nível de Campeonato da Europa ou do Mundo em quatro dos dez anos em análise (2010, 2011, 2012 e 2016).

Portanto, se a participação (e a qualidade da mesma? Adiante veremos.) cresceu de uma forma geral, passaremos em seguida a perceber qual foi a evolução da competitividade internacional (densidade) de cada disciplina neste período considerando o número médio de países participantes. (não foi tomada em consideração, para já o número de participantes, até porque esse fator está incluído na fórmula de cálculo das pontuações de cada resultado e, por essa via, já incluído na análise)


Evolução da média de países participantes nas disciplinas







Numa análise superficial poder-se-ia afirmar que a densidade da participação internacional tem tendência decrescente na Ginástica Acrobática, na Ginástica Aeróbica e na Ginástica Artística Masculina e crescente nas restantes com realce para a tendência espetacularmente crecente na Ginástica Rítmica.

Ora, uma análise mais fina faz-nos ver que, na Ginástica Acrobática, apesar da tendência ao longo dos dez anos da análise ser decrescente,  os últimos três anos têm um comportamento inverso, sendo até bastante crescente, e isso coincide com o também maior crescimento do total anual da disciplina. Por outro lado, na Ginástica Rítmica a reta de tendência é claramente influenciada pela já referida ausência de participação interncacional ao nível de Campeonatos do Mundo ou da Europa nos anos de 2010, 2011, 2012 e 2016. De qualquer forma, mesmo expurgando esses anos a tendência continua a ser crescente o que torna para a Ginástica Rítmica válida com as devidas adaptações a mesma análise efetuada para a Ginástica Acrobática.

Passemos então ao último parâmetro de análise: a média de classificação por resultado.

Evolução da média de classificação por resultado








Numa primeira análise dos gráficos constatamos que temos três disciplinas com uma reta de tendência crescente (AER, GAF e GR) e outras três com uma reta de tendência decrescente (ACRO, GAM e TRA).

Relativamente às tendências decrescentes:

No caso da Ginástica Acrobática esta é decisivamente influenciada pelos resultados de um par misto em 2011 e 2012, sendo nesses anos praticamente os únicos resultados internacionais em Campeonatos da europa e do Mundo e sempre de nível de medalhas ou muito próximo. De qualquer forma, e mais uma vez, ao olhar para últimos três/quatro anos a tendência é claramente crescente. Também na Ginástica de Trampolins a tendência decrescente é facilmente explicável pela mistura entre a especialidade olímpica e as não olímpicas pelo que se a análise fosse efetuada por especialidade os resultados seriam francamente diferentes com uma tendência marcadamente crescente na especialidade olímpica (fica para mais tarde).

Já na Ginástica Artística Masculina é difícil encontrar uma explicação para esta tendência decrescente especialmente por ser tão pronunciada e consistente.

À disposição para esclarecer quaisquer dúvidas.

Ginástica, sempre!  









domingo, 4 de abril de 2021

Apoios a clubes, ginastas e treinadores

 

Entre 2012 e 2020 foram criados vários programas de apoio a ginastas, treinadores e clubes que mudaram de uma forma muito significantiva a capacidade dessas peças do sistema gímnico atuarem com eficácia e em registos mais próximos dos padrões internacionais.

Em seguida listam-se os programas mais importantes implementados:

Programa de bolsas, prémios e apoios a ginastas

Este programa foi uma das primeiras prioridades da gestão da FGP neste período tendo sido a sua primeira versão lançada em dezembro de 2012.

Até então apenas a Ginástica Artística Masculina dispunha de um sistema de bolsas.

O programa então lançado apenas abarcava inicialmente as disciplinas olímpicas e foi evoluindo no seu desenho e no investimento alocado anualmente que, nos últimos anos, chegou a perto de 80 000€/ano abracando todas as disciplinas.

Os 3 tipos de intervenção (bolsas, prémios e apoios) têm enquadramentos bastantes diferentes:
  • As bolsas destinam-se à compatibilização entre uma vida académica/profissional e a prática da Ginástica de Alto Rendimento com patamares de excelência. Portanto, o acesso às bolsas parte de um referencial desportivo (um conjunto de resultados de excelência e) e compatibiliza (nos casos em que isso acontece) a necessidade de efetuar treinos bidiários com o percurso académico ou a entrada mais tardia na vida profissional e, por isso, não são uma recompensa por um resultado de excelência antes uma via para a prosecução continuada dessa mesma excelência num contexto de carreira dual;
  • Já os prémios têm uma matriz completamente objetiva de atribuição. "X" resultado equivale a "Y" prémio. Os prémios e as bolsas são acumuláveis entre si e com bolsas do projeto olímpico quando existem assim como apoios no quadro dos percursos de excelência que mais à frente se abordará;
  • Os apoios, por seu turno, têm uma dimensão mais social, numa apreciação casuística e destinam-se, sobretudo, a suprir carências de natureza soicioeconómica ou dificuldades desportivas transitórias de talentos ou de ginastas de excelência. Os apoios sempre estiveram abertos a todas as disciplinas.
Percursos de Excelência

Programa criado há cerca de 5 anos destinado espcificamente a estudantes universitários das disciplinas olímpicas e como complemento às bolsas, com características que passam, não só pelos resultados desportivos e académicos obtidos, mas também por um compromisso ao nível da carreira desportiva e de objetivos a curto e médio prazo.

Tanto o programa de bolsas, prémios e apoios como os percursos de excelência, contribuiram, ao longo dos anos para fixar mais ginastas durante mais tempo na prática da modalidade contribuindo assim, não apenas para o sucesso individual e coletivo de ginastas beneficiados(as) como também para o estabelecimento mais sólido de modelos para ginastas mais novos e, assim, a afirmação de uma "escola de ginástica portuguesa". É necessário que estes programas sejam prolongados no tempo e desenvolvidos de acordo com as possibilidades da FGP para que posam afirmar todas as suas mais-valias.

De realçar que os passos que foram dados neste programas, foram-no sempre de uma forma cuidada e sustentada por parte dea Direção da FGP para que pudessem perdurar no tempo.

Programa de Apoio a Treinadores de Alto Rendimento (PATAR)

Criado em 2012 teve como objetivo primordial a profissionalização de treinadores de Ginástica. Ao longo de 9 anos, com um investimento anual superior a 120 000€, beneficiou, ao longo de 9 anos, um conjunto de mais de 10 treinadores (as). Sem treinadores (as) profissionais será muito difícil à Ginástica portuguesa ser competitiva a nível internacional e, por isso, a continuidade e desenvolvimento de forma sustentada deste Programa muito contribuirá para o aumento dessa continuidade.

Apoio a Treinadores de Elevado Potencial (ATEP)

Com o desenvolvimento do programa PATAR, tornou-se evidente a partir de determinado momento que havia uma série de treinadores (as) de Elevado Potencial, que até contribuíam de uma forma significativa para as equipas nacionais sobretudo em escalões mais jovens mas que dificilmente tinham acesso ao programa PATAR quer por causa da limitação dos recursos financeiros, pelos escalões etários em que intervinham, pela possibilidade de profissionalização como treinador(a) de Ginástica ou pelas condições de treino existentes no clube de origem.

Foi a partir deste cenário que a Direção da FGP criou o Programa ATEP com um investimento anual de cerca de 12 000 e que ajudou a motivar e estimular treinadores/as de elevado potencial (4 por ano das várias disciplinas) num percurso que, como se sabe, é demorado e difícil até que se chegue aos patamares de intervenção de excelência em seniores. 


Programa de Apoio ao Apetrechamento

Também criado em 2012, este programa rompeu com uma falta de tradição de investimentos programados nesta área tão importante para a sobrevivência dos clubes que, regra geral, não conseguem investir o necessário no tempo certo para que se mantenham competitivos e atraentes para as famílias que os procuram.

Com um investimento anual de cerca de 40 000€ mais de 50 clubes foram apoiados ao longo do período 2012-2020.

Este é um programa estruturante que, à medida das possibilidades da FGP, deveria ser ampliado ou pelo menos mantido com o propósito de, uma dia, todos os clubes filiados poderem ter sido objeto de algum tipo de apoio.



Esta amostra representativa de programas de apoio a ginastas, treinadores e clubes no período 2012-2020 revela uma atitude reformista, decidida, de serviço aos elementos estruturantes do sistema gímnico (ginastas à cabeça), que é indiscutivelmente o fim primeiro e último da FGP. 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Casa da Ginástica

 




A Casa da Ginástica tem sido (com este nome ou outro) um tema recorrente no seio da comunidade gímnica, pelo menos nos últimos 20-30 anos.

Corresponde à necessidade da existência de uma infraestrutura desportiva que seja passível de ser utilizada 365 dias por ano, 24 horas por dia pela FGP, seja para preparação de equipas nacionais, territoriais ou de clubes, fomento desportivo, formação de agentes desportivos, como plataforma logística, como montra da importância desportiva de uma modalidade que tarda em conseguir reconhecimento dessa importância.

A sua ausência implica uma desvantagem concorrencial interna e externa que há muito urge resolver.

A FGP perdeu uma oportunidade histórica em 2003, na sequência da organização em Portugal da Gymnaestrada Mundial de concretizar este desígnio há muito identificado. Foram tomadas outras opções. Legítimas mas com as quais não concordo

Durante a gestão da FGP entre 2012 e 2020 e mesmo antes disso, a Casa da Ginástica foi eleita como uma das prioridades, se não a maior prioridade.

Então porque é que ainda não existe? Será que já podia existir? O que reserva o futuro?

Então. Sucintamente:

2012 - 2015

Viveu-se um período na história da FGP em que as palavras de ordem foram recuperar, reconstruir, fortalecer, desenvolver num contexto de grave instabilidade financeira e económica no país e da FGP.

Simultaneamente havia um projeto sobredimensionado para a Casa da Ginástica que custava 8 milhões de euros sem qualquer capacidade própria da FGP para ser parte da solução nem ajudas à vista.

O local previsto para esta implantação, algures em Lisboa deixou de estar disponível e o projeto, claramente impossível para a FGP foi redimensionado para um espaço desportivo com cerca de 1800m2 e um custo total de cerca de 2,5 M€.

Acontece que o espaço (agora na Alta de Lisboa) cedido pela Câmara Municipal de Lisboa não era o ideal nem nunca houve por parte da CML vontade em ser parte da solução não tendo a FGP capacidade de recorrer à banca na altura por força da situação financeira ainda débil.

2016 - 2020

Constatando-se que a Alta de Lisboa, por vários motivos não era a solução, surge entretanto aquela que é a solução que viria a ser efetivamente concretizada em dezembro de 2020.

A Casa da Ginástica em Odivelas num projeto de requalifaicação de uma infraestrutura existente.

Entre sucessivos ajustes de projeto, aprovações da Câmara Municipal de Odivelas e do IPDJ, estudos técnicos no local, surge o projeto final e respetivo orçamento no valor de 2.9M€ em julho de 2020.

Os passos seguintes foram:

  • Assegurar que os bancos com que a FGP trabalha estariam disponíveis para acompanhar o projeto na dimensão em que seria necessário a FGP assegurar financiamento próprio. Tal foi assegurado;
  • Construir um modelo de negócio com vários cenários e com a identificação precisa das fontes de financiamento. Tal foi levado a cabo com o apoio da Universidade Católica;
  • Apresentação à AG da FGP do projeto e respetiva aprovação do orçamento para 2021 com a inclusão da Casa da Ginástica. Tal aconteceu na AG de dezembro de 2020, já com os delegados mandatados para 2021-2024;
  • Passagem do dossiê ao novo Presidente da FGP eleito. Efetuado em janeiro de 2021.
Ainda em janeiro de 2021 foi celebrada a escritura de cedência do direito de superfície por parte da Câmara Municipal de Odivelas e a FGP que implica o início da construção durante o ano de 2021.

Se tal não aocntecer ou não houver negociação com a CMO sobre o assunto, a FGP perderá esta oportunidade.

2021 ?

A Ginástica tem nas maõs a solução para uma necessidade há muito identificada.

Claro que é preciso trabalho.

Claro que é preciso encontrar a solução para o modelo de negócio construído.

Claro que é preciso diálogo intenso com a CMO que é uma parte importante da solução e que para tal está disponível.

E o mais importante. Numa época de incertezas e de crise sanitária, um projeto que tem, na pior das hipóteses um efeito neutro nas contas da FGP, só pode ser uma prioridade.

Oxalá assim seja!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Decisão participada


 

Decisão participada


Os processos de decisão participada, nem sempre valorizados por alguns particpantes que interpretam a participação como sendo algo que resultará, inevitavelmente, numa decisão com que estejam de acordo são, porventura, o instrumento mais poderoso no quadro da informação de apoio à gestão e as organizações devem estimular e incorporar no seu modus operandi esta linha de ação de uma forma regular e intencional.

De resto, o princípio da participação, não deve ser considerado como um concessão do decisor em relação ao participante, mas um direito deste último que tem força de Lei no Código do Procedimento Administrativo relativamente à produção legislativa e que, com as devidas adaptações deve ser aplicado às organizações de uma forma geral, mesmo que a força de Lei não se aplique aí da mesma forma.

Refiro alguns princípios que julgo serem basilares para que os processos de decisão participada cumpram o seu objetivo sem distorções e sem gerarem falsas expectativas:
  • Os participantes devem conhecer quem são os decisores e quais são os macanismos de decisão;
  • Os participantes devem conhecer antecipadamente o que de si se espera no processo de participação;
  • As fases do processo de decisão devem estar balizadas no tempo e dadas a conhecer aos participantes;
  • A decisão final deve incorporar uma justificação que torne claro aos olhos dos participantes, quer esta seja coincidente com a sua opinião ou não, quais os argumentos de várias naturezas que levaram a tal decisão;
  • Os momentos de participação devem ser organizados por grupos de interesse, quando tal se aplique, não sendo aceitável que a entrevista individual possa ser considerada (embora no sentido mais lato possa ser e no sentido estrito seja um instrumento naturalmente válido) participação no processo, uma vez que retira transparência ao mesmo e contém riscos de manipulação da informação.
Posto isto, entre 2012 e 2020 foram implementados no seio da FGP diversos mecanismos de decisão participada, uns permanentes, como a dignidade estatutária dada ao Conselho Consultivo e outros pontuais como a ampla consulta à comunidade gímnica que levou à concretização dos "Elementos estratégicos para a sustentabilidade da Ginástica portuguesa a curto, médio e longo prazo" publicado em maio de 2013 e que se constituiu durante todo esse período entre 2012 e 2020 como um referencial de gestão que provou ser estruturante para o equilíbrio da FGP e o desenvolvimento da Ginástica em Portugal.

Listo em seguida alguns dos mecanismos criados no período suprarreferido;

  • Ampla consulta à comunidade gímnica que resultou na publicação em maio de 2013 dos "Elementos estratégicos para a sustentabilidade da Ginástica portuguesa a curto, médio e longo prazo";
  • Conferida dignidade estatutária ao Conselho Consultivo da FGP que reúne periodicamente Presidente da FGP, Presidentes das Associações Territoriais e Presidentes de Associações de classe devidamente reconhecidas pela FGP;
  • Criadas as Comissões Técnicas (uma por disciplina) constituídas de técnicos nomeados pela Direção da FGP sob proposta d@s Diretor@s Técnic@s, com um funcionamento consultivo de apoio à Direção Técnica de forma independente da Direção;
  • Criado o "Plenário Técnico Nacional" com várias alterações de formato ao longo dos anos como instrumento de propostas por parte da comunidade técnica à Direção Técnica Nacional e posteriormente à Direção da FGP;
  • Ampla discussão com a comunidade sobre o enquadramento de ginastas infantis e benjamins que resultou na adoção de medidas regulamentares, designadamente no que concerne à organização de eventos para estes escalões etários;
  • Implementação de rotinas de visita a clubes por parte da Direção da FGP (cerca de 110 clubes visitados em 9 anos) - Conhecer mais para decidir melhor;
  • Implementação na estruttura do perfil profissional da Direção Técnica Nacional da obrigatoriedade de um número mínimo de visitas anuais a clubes e a eventos de At's - conhecer mais para decidir melhor.
Estes são alguns (bons exemplos). Muito mais haverá com certeza a fazer e muitas outras boas ideias a concretizar para que se possa aprofundar esta linha de ação.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Reconhecimento internacional e desenvolvimento das organizações gímnicas em Portugal

 


Reconhecimento internacional e desenvolvimento das organizações gímnicas em Portugal


(Este texto é uma adaptação de uma comunicação apresentada por mim no Congresso da Ginástica 2020)


Nos anos de 2017, 2018 e 2019, a Federação de Ginástica de Portugal (FGP) foi identificada pela Federação Internacional de Ginástica como a segunda num ranking mundial das “Federações meritórias” (ainda não é conhecido o ranking de 2020) construído com base num conjunto de critérios que importará aqui analisar e que revelam o grau de profissionalismo alcançado pela FGP ao longo dos anos.

Estes critérios são, a saber:
  • Participação nos Campeonatos do Mundo das diversas disciplinas (GAF/GAM, GR, ACRO, AER, TRA)
  • Participação na Gymnaestrada Mundial
  • Participação no Gym for Life Challenge Mundial
  • Participação no Congresso da FIG
  • Participação em Academias FIG (1 uma pontuação, 2 ou mais duplica a pontuação)
  • Participação num Simpósio ou Colóquio FIG
  • Participação em pelo menos 10 Taças do Mundo
  • Participação nas reuniões de atletas nos Campeonatos do Mundo
  • Organização de Campeonato do Mundo
  • Organização de Gymnaestrada Mundial
  • Organização de Gym for Life Challenge Mundial
  • Organização do Congresso da FIG
  • Organização de Academias FIG
  • Organização de um Simpósio ou Colóquio
  • Organização de um “Dia Nacional da Ginástica”
  • Organização de uma Gymnaestrada nacional
  • Organização de uma Taça do Mundo ou Challenge Cup
  • Cumprimento de prazos
  • Cumprimento de obrigações financeiras
  • Respeito dos prazos de inscrição para competições FIG (máx 10)
  • Respeito pelos prazos de inscrição no Congresso da FIG
  • Respeito pelos prazos de inscrição em Academias FIG
Existem também penalizações:

  • Incumprimento de prazos de inscrição (de cada vez)
  • Incumprimento de obrigações financeiras (de cada vez, max 6)
  • Sanção disciplinar imposta a um membro da federação
  • Violação das regras anti-dopagem
Que fatores que têm contribuído mais fortemente para este sucesso e como se poderá manter níveis semelhantes?

  • Ecletismo e quantidade na participação (basicamente participámos em tudo)
  • Dinâmica organizativa (Taças do Mundo, Academias FIG, sempre numa busca intencional e sistemática de atrair grandes eventos para Portugal. Campeonato do Mundo e CMGI de AER em 2018, World Gym for Life Challenge em 2021, isto no seio da FIG. Muitíssimas mais no seio da European Gymnastics como pude demonstrar no meu texto anterior)
  • Cumprimento de todas as obrigações (prazos de inscrição e pagamento)
  • Ausência de sanções disciplinares nos últimos anos
  • Ausência de violação de regras antidopagem nos últimos anos
Para manter o sucesso alcançado dever-se-á:

  • Manter a constância de organização de Taças do Mundo;
  • Continuar a trazer eventos de grande dimensão FIG para Portugal;
  • Manter os níveis de participação internacional;
  • Manter o nível de mecanização dos procedimentos internos que permitem o cumprimento de prazos perante a FIG;
  • Manter e melhorar, se possível, a educação para a prevenção de comportamentos abusivos e atentatórios da transparência nas competições de Ginástica bem assim como a implementação de uma sistema de avaliação de juízes
  • Manter e se possível melhorar a informação sobre a dopagem a ginastas, treinadores e pais.
   
Em contrapartida, os motores mais eficazes do desenvolvimento da Ginástica são, como se sabe, os clubes (as células fundamentais do Desporto) que têm graus de sofisticação organizativa e profissionalismo muito heterogéneos, e as Associações Territoriais de Ginástica (AT’s), que dependem financeiramente em quase cem por cento da FGP (com exceção das Associações dos Açores e da Madeira que recebem apoio dos respetivos Governos Regionais. Estas Associações Territoriais têm graus de sofisticação organizativa e de profissionalismo muito rudimentar e, nalguns casos, inexistentes.

As At’s estão descapitalizadas de recursos humanos, financeiros e logísticos e têm, por isso, muita dificuldade em inovar e em se desenvolverem e, consequentemente, em serem motores de desenvolvimento gímnico.

Isto, é justo dizê-lo, é parcialmente compensado pela extrema dedicação de um punhado de dirigentes e técnicos que, de uma forma voluntária não remunerada demonstram uma dedicação sem limites à causa da Ginástica.

A título de exemplo, se a FGP implementasse um sistema de financiamento às At’s que passasse por critérios semelhantes aos do programa da FIG, com as devidas adaptações, as pontuações iriam ser, em termos gerais, muito baixas, resultando no caso de algumas AT em níveis de financiamento próximo do zero.

A assimetria entre a estrutura da FGP e a das At’s é fácil de identificar e consensual. Do lado da FGP uma estrutura completamente profissional, do lado das AT’s estruturas descapitalizadas e maioritariamente amadoras.

Este problema constitui uma barreira ao desenvolvimento da Ginástica? Se assim for, é possível resolvê-lo?

Na minha opinião sim. É claramente uma barreira ao desenvolvimento da Ginástica. Contudo é necessário que, mais do que reconhecer que existe um problema (essa é a parte fácil), haja vontade de o resolver. E há seguramente soluções.

Uma delas (poderá haver outras imagino) foi estudada e apresentada às At’s pela Direção da FGP no ano de 2014.

Essa solução era a “reorganização do mapa associativo da Ginástica”

Essa reorganização proposta assentava nos seguintes princípios gerais e objetivos:
  • Promover o desenvolvimento da Ginástica a nível nacional;
  • Implementar programas técnicos uniformes em todo o território nacional;
  • Produzir oferta de eventos destinados aos escalões de Benjamins e Infantis em todas as disciplinas e todos os territórios do país;
  • Promover a realização, até ao final de 2016, com carácter regular em cada território, de pelo menos 3 eventos destinados aos escalões de Benjamins e Infantis em todas as disciplinas;
  • Aumentar o número de filiados individuais e coletivos em 30% até ao final do ano de 2016;
  • Estabelecer pontes e organizar eventos dirigidos aos clubes do Desporto Escolar e a clubes não filiados;
  • Diminuir o número total de Associações Territoriais (nos tempos que correm já não penso que isso seja uma inevitabilidade mesmo dentro do modelo proposto);
  • Aumentar a capacidade de intervenção técnico-administrativa das Associações Territoriais;
  • Dotar algumas Associações Territoriais de meios humanos adicionais a tempo inteiro.
Estes princípios gerais e objetivos implicavam um compromisso por parte da FGP em:
 
  • Dotar as Associações Territoriais (num máximo de 3) com um recurso humano especializado pago pela FGP e que desempenhará as funções de diretor/a Executivo/a da Associação Territorial (no território que abarque as regiões da Grande Lisboa e Península de Setúbal, esses recursos humanos serão os Diretores Técnicos da FGP, nas regiões autónomas, esses recursos humanos serão providenciados pelo Governo Regional);
  • Contratualizar com cada Associação Territorial, a organização de um conjunto muito específico e concreto de atividades, de acordo com os programas técnicos da FGP, assegurando ainda a viabilidade de alguns projetos específicos de cada território, de acordo com propostas devidamente fundamentadas;
 
Tinha um cronograma associado e implicava o estabelecimento do seguinte mapa associativo que foi determinado com base nos dados administrativos e demográficos de cada território:




Poder-se-ia dizer que parece um bom plano. Então o que falhou e porque é que falhou?

O que falhou foi a unanimidade das Associações Territoriais em rejeitarem qualquer proposta de reorganização associativa já que a mesma implicaria a extinção/agrupamento de Associações Territoriais (redução de 10 para 6). Cmo anteriormente afirmei, hoje em dia já não penso que esta fusão ou extinção seja uma inevitabilidade mesmo dentro do modelo proposto em 2014.

A alternativa seria uma imposição que foi de imediato rejeitada no seio da reflexão levada a cabo pela Direção da FGP, porque teria seguramente um efeito contrário ao objetivo da reorganização do mapa associativo que é o desenvolvimento da Ginástica.

Julgo que, se se pretender aumentar a capacidade operacional das At’s, se terá que voltar inevitavelmente a este tema. Caso contrário, se a Ginástica continuar a sua tendência de crescimento depois de nos livrarmos desta maldita pandemia e continuar também a tendência da complexificação da nossa modalidade e da sofisticação crescente exigida, designadamente na organização de eventos, a tal capacidade operacional das At’s terá tendência a se degradar ainda mais.

Julgo ser urgente que a comunidade gímnica reflita sobre este tema e o coloque de novo na ordem do dia, a bem da Ginástica. Haverá melhor altura doq ue um confinamento forçado, sem competições, para fazer este tipo de reflexões?

Não minha opinião é o momento ideal.