domingo, 29 de novembro de 2020

Rigor financeiro

 


Rigor financeiro

Em janeiro de 2012 a Federação de Ginástica de Portugal (FGP) tinha cerca de 1 000 000 € (um milhão de euros) de dívida de curto e médio prazo. 

Como se tal não fosse suficientemente mau, tinha sido efetuada cerca de um ano antes a integração das disciplinas gímnicas que faziam parte da Federação Portuguesa de Trampolins e Desportos Acrobáticos (FPTDA) na FGP, num processo que alguém um dia qualificou como a "junção de duas falências numa só de maior dimensão".

Chegados a 2020 já ninguém se lembra desses tempos (alguns fazem por não se lembrar) mas, sendo certo que a saúde financeira da FGP é hoje em dia evidente, a sua destruição pode muito facilmente ser causada por seis meses ou um ano de gestão ruinosa.

Como se chegou aqui e porque é que as conquistas efetuadas podem ser facilmente destruidas é o que explicarei a seguir.

Em 2012 o dilema era este: "Como manter e desejavelmente aumentar a atividade, designadamente ao nível do Alto Rendimento e também ao nível do desenvolvimento da prática desportiva num cenário em que o financiamento público da Ginástica era cerca de metade da soma do financimaneto público à FPTDA e FGP em anos anteriores à reintegração das disciplinas de Ginástica de Trampolins e Ginástica Acrobática na FGP e as dívidas de curto e médio prazo da FGP ascendem a cerca de 1 000 000€ (um milhão de euros)?"

Também não ajudava a existência de uma cultura organizacional que construía orçamentos com base em necessidades financeiras sem considerar os recursos (planos de tesouraria), havendo também mecanismos de controlo da despesa muito frágeis e um muito fraco retorno às empresas e instituições parceiras.

Mas não se pense que o rigor financeiro é apenas uma questão de "deve e haver", de simples aritmética. É muito mais do que isso como se verá.

Foram implementados de imediato alguns ajustes que permitiram ir mantendo a "cabeça à tona da água", pedido crédito bancário a muito custo conseguido, dado o historial à data da FGP ao nível financeiro e iniciou de imediato um período de reflexão no seio da Direção da FGP mas também junto da comunidade gímnica que conduziu à criação, em maio de 2013, de um documento que compilou uma série de elementos estratégicos para a sustentabilidde da Ginástica portuguesa no quadriénio respetivo. Esse documento partiu de uma análise S.W.O.T. da em várias dimensões, traçou um "retrato" e a partir daí definiu objetivos de sustentabilidade e medidas associadas com vários cenários nalguns casos. As medidas incidiam em três dimensões: Administrativa, Desportiva e Financeira.

Relativamente à dimensão financeira foram considerados os seguintes princípios e tomadas as seguintes medidas:

  • Nos anos em que a FGP (anteriormente a 2012) conseguiu equilíbrio financeiro, fê-lo sempre à custa de receitas extraordinárias. Esse equilíbrio financeiro deve porvir de receitas ordinárias
    • Reformulação das taxas de filiação base numa elasticidade moderada/baixa e num crescimento nulo de filiados (como se viu depois esta assunção, como convém era muito conservadora).
    • Reformulação das taxas de participação em competições e eventos com numa elasticidade próxima de 1)
    • Manutenção das entradas pagas nos eventos FGP reforçando a política de redistribuição de receitas com entidades coorganizadoras.

  • Renegociar seguros por forma a obter produtos mais baratos, sempre adequados às necessidades.
    • Tendo como objetivos baixar prémios e franquias.
    • Todos os prémios, incluindo aqueles que não eram revelados publicamente para permitirem a fixação de taxação autónoma por parte dos clubes serão divulgadas no manual de filiação e refiliação numa perspetiva de cativar mais pessoas a subscrever o seguro básico e o seguro de competição da FGP.
  • Nível de receitas extraordinárias deve permitir o saneamento financeiro progressivo e o atingir de patamares compatíveis com investimentos estratégicos
    • Manutenção do ritmo organizativo de grandes eventos internacionais
      • Continuação da organização de um mínimo de 5 etapas de taças do mundo (1 por disciplina em que existe circuito);
      • Campeonato da Europa de ACRO em 2013 em Odivelas
      • Campeonato da Europa de TRA em 2014 em Guimarães;
      • Em estudo apresentação de candidatura ao Campeonato da Europa de AER em 2015
      • Apresentada candidatura ao Festival Golden Age 2016 no Funchal

    • Criação de eventos nacionais com formatos mais apelativos que possam aproximar o público em geral da Ginástica
      • Espetáculo flic-flac
      • Espetáculos gímnicos de alto perfil através de situações de competição formal com regulamentos adaptados ou situações informais de “despique” sempre com grupos de ginastas muito restritos e selecionados entre os melhores ginastas das seleções nacionais
    • Intensificar os esforços de angariação de patrocínios em dinheiro e em serviços
    • Intensificar a procura de parcerias locais para projetos específicos e para o cartão amigos da Ginástica
    • Continuação de candidaturas a fundos europeus quando possível e a fundos promovidos por instituições privadas
    • Criação da marca FGP com produtos associados apetecíveis para a comunidade e público em geral
No final do ano de 2016 a FGP chegou a um ponto muito próximo da total solvabilidade que só não foi antecipado dada a circunstância de, em julho de 2013 o governo ter anunciado um corte de mais de 20% no financiamento às federações num momento em que a execução orçamental estava já a cerca de 80%.

Por volta do final do ano de 2018 deixou de ser necessário continuar a haver um foco na dívida por a mesma ser inexistente e a FGP deixou de ter necessidade de recorrer a créditos ou contas caucionadas nos bancos.

Claro está que o factor decisivo do sucesso neste processo não foi o planeamento (embora tenha sido o ponto de partida) mas sim a execução. E para essa execução a direção financeira da FGP desenhou um conjunto de procedimentos relativos ao controle da execução orçamental, à modernização da estrutura administrativa e financeira e à monitorização dos fluxos financeiros que como se vê nos dias que correm resultou em pleno. Para isto toda a estrutura da FGP teve que contribuir. Desde logo os serviços administrativos e financeiros mas também, de uma forma muito intensa, toda a Direção Técnica Nacional que atingiu, nos dias que correm, um grau de proficiência muito elevado no plano e controlo de fluxos financeiros fator crucial para o sucesso dos macanismos dado o volume de recursos financeiros com que lidam anualmente.

Hoje em dia a FGP consegue gerir o dia a dia e ainda pensar estraegicamente ao nível dos investimentos e tem um grau de autonomia relativamente ao financiamento público cada vez maior (cerca de 70% atualmente)

Mas atenção! Nem o trabalho está fechado nem se pode dizer que haja ausência de riscos. Basta que uma qualuqer gestão da FGP desvalorize o caminho até aqui percorrido ou os instrumentos desenhados para que, como anteriormente afirmei, em seis meses a um ano, a FGP volte a estar numa situação muito complicada ao nível financeiro.

Pessoalmente espero que esta minha afirmação nunca possa ser comprovada.


domingo, 15 de novembro de 2020

Regulamentos


Regulamentos



Quando, em janeiro de 2012, iniciámos esta aventura de nove anos de gestão da Federação de Ginástica de Portugal (FGP) começámos, entre outras coisas, por regulamentar uma série de áreas de atividade que tinha uma regulação anacrónica ou, na maior parte dos casos, inexistente.

Esta "onda reformista" foi malvista por alguns e considerada exagerada. Na minha opinião, tal forma de olhar para esta questão só se pode admitir se houver desconhecimento total ou parcial da realidade anterior ou do real sentido dos regulamentos criados ou alterados.

Assim, inicio hoje uma série de textos sobre a gestão da FGP nestes últimos nove anos, para memória futura, porque a mesma é frequentemente de curta duração e porque sinto que, ao longo destes anos, muitos foram os momentos em que eu próprio e a direção da FGP fomos injustamente tratados, a maior parte das vezes por desconhecimento dos assuntos.

De quem é a culpa? Provavelmente nossa ao não termos sabido bem comunicar o que estávamos a fazer, mas acreditem, sobretudo nos primeiros anos, cada dia que passou foi uma autêntica caixa de surpresas em que a única coisa a fazer foi "correr atrás do prejuízo" tendo o dia-a-dia um efeito esmagador sobre qualquer pensamento mais descontraído ou reflexivo.

Assim, porque mais de 400 pessoas se deram ao trabalho de ler o primeiro texto que escrevi em 21/08/2020, dou agora início a uma série de onze textos que, espero, façam jus a todo o trabalho desenvolvido pela Direção da FGP, mas também de todos os colaboradores, Associações Territoriais, clubes, treinadores, dirigentes, juízes e, claro está, ginastas, ao longo destes últimos nove anos.

Não vou citar exaustivamente todos os regulamentos produzidos ou alterados pela atual direção, antes me vou centrar naqueles que considero os mais estruturantes para a Ginástica portuguesa tendo a certeza que continuarão a sê-lo no futuro.

Não falarei portanto de alterações estautárias (da responsabilidade da Assembleia Geral) ou do Regulamento eleitoral (obrigatoriamente ratificado pela Assembleia Geral), tendo sido efetuadas algumas. Contudo, tais alterações inserem-se mais num quadro de obrigações legais da FGP do que num quadro reformista do sistema. De resto as alterações mais profundas a estes dois regulmentos foram efetuadas ainda antes do início da nossa gestão na sequência da aprovação do Regime Jurídico das Federações Desportivas em 2008, tendo sido um trabalho profundo e difícil conduzido por uma equipa chefiada pelo então Presidente da Mesa da Assembleia Geral José Manuel Araújo. Das modificações posteriores a 2011, apenas se realça a integração da Ginástica de Trampolins e da Ginástica Acrobática já no período de gestão da atual direção. De resto não houve alterações significativas até às últimas versões em vigor (abril de 2015 para os Estatutos e janeiro de 2018 para o regulamento eleitoral). A quem interessar pode solicitar-me o histórico da evolução destes dois Regulamentos fundamentais para qualquer federação desportiva.

Há algumas pessoas que desvalorizam a importância da função reguladora na Ginástica que é uma competência estatutária exclusiva da Direção, apelidando-a muitas vezes de "burocracia". Espero que com a leitura do presente texto, quem a ele aceder de boa fé perceba que não é assim.

Começo por referir um documento no qual foram introduzidos pequenos ajustes e que apesar de já existir anteriormente com um nome semelhante, foi dado um conteúdo completamente diferente. Refiro-me ao Regulamento Geral e de Competições, onde se especifica a estrutura orgânica da FGP e as missões de cada unidade assim como as regras chave para as competições nacionais. A primeira versão foi publicada em junho de 2012, cerca de 5 meses após a tomada de posse da atual direção. Anteriormente apenas existia um "Regulamento Geral" que tinha sido publicado em 30/11/2007.

Continuo referindo outro regulamento, publicado também em junho de 2012 e que era até à data inexistente. Refiro-me ao Regulamento de Publicidade, ferramenta muito importante para o relacionamento com os nossos potenciais e atuais patrocinadores e para os coorganizadores de competições com a FGP.

Um dos regulamentos de que nos sentimos mais orgulhosos e que também era inexistente à data do início de funções da atual Direção é o Regulamento de Bolsas, prémios e apoios cuja primeira versão foi publicada em dezembro de 2012, que incialmente apenas contemplava  as disciplinas do programa dos Jogos Olímpicos de verão e que, a partir da sua versão de setembro de 2019 passou a contemplar todas as disciplinas competitivas. Só para nos situarmos o tempo, antes de 2012 apenas existia um sistema de bolsas para a Ginástica Artística Masculina, e tanto quanto sei, nos tempos da FPTDA existiria um sistema de prémios para a ginástica de Trampolins e Ginástica Acrobática. Quando foi efetuada a reintegração dessas disciplinas na FGP, em 2011, tal sistema desapareceu, até ser criado o Regulamento aqui citado, tendo sido, cremos um instrumento poderoso para a ajuda a carreiras duais, prolongando assim a longevidade d@s noss@s ginastas.

Outro Regualmento criado pela atual Direção foi o Regulamento para a atribuição de Galardões, Títulos e Prémios, publicado pela primeira vez em abril de 2012, corespondente a disposições estatutárias e do Regulamento Geral que nunca tinham sido regualmentadas. Tem sido possível, através deste Regulamento premiar e reconhecer, de uma forma regular e com toda a transparência, o mérito de agentes deportivos e outros indivíduos e instituições com relevência acrescida para o desenvolvimento da Ginástica.

Porque este texto já vai longo, termino com aquela que é a peça regulamentar mais recente do portfólio da FGP, da qual eu e a Direção muito os orgulhamos, que correspondeu a um período de reflexão e iniciativas que durou mais de um ano e que é o Código de Ética, que viu a luz em outubro de 2019 e que veio na sequência da Direção ter colocado a defesa da ética na Ginástica no centro da sua ação a partir do início do ano de 2018. Foram criados o Compromisso Nacional contra o abuso e o assédio na Ginástica e o Compromisso Nacional para a Transparência e Integridade nos Eventos Desportivos de Ginástica. Tais documentos surgiram na sequência de trabalho desenvolvido com o Comité Olímpico de Portugal, o Instituto Português do Desporto e da Juventude e outras organizações nacionais e internacionais e atingiu a maturidade no final de 2019 com a organização do Seminário Internacional contra a Violência na Ginástica, realizado em Cascais e o respetivo Seminário Nacional no Porto, tendo sido lançadas as linhas sosginasta@gympor.com e sostreinador@gympor.com, que recebem e encaminham denúncias ou quexas relacionadas com a proteção dos direitos de ginastas e treinadores em contexto de treino e competição desportiva.

Muito mais haveria a relatar e informar no capítulo da atividade reguladora da FGP, mas para já boas leituras desta parte. Talvez volte a este assunto mais tarde.

Para já não vos maço mais.

Até breve.