segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Medalhas?

A valorização absoluta da medalha independentemente do seu valor relativo ou do valor relativo de outras posições na classificação de uma competição é desde sempre em Portugal algo com que temos convivido.
 
A independência dessa valorização absoluta de uma análise contextual do fenómeno desportivo é ainda mais gritante ao ponto de haver uma total ausência de pensamento estratégico relativo ao Desporto complacentemente aceite pela maior parte dos intervenientes no sistema desportivo já para não falar da massa de aficionados não praticantes ou dos comentadores (também eles raramente praticantes) do fenómeno desportivo.
 
Este estado de coisas radica num atraso cultural em tudo o que se refere ao Desporto, em comparação com a esmagadora maioria (todos?) dos outros países europeus, só para falar do nosso continente.
 
Então, quais são as características basilares do nosso "sistema" desportivo, se é que se pode chamar "sistema" a algo que não funciona?
 
  • Desvalorização progressiva da Educação Física e do Desporto Escolar no seio do ensino básico e secundário (nos últimos anos o ataque à Educação física e ao Desporto foi provavelmente o maior de todos os tempos havendo que suportar inevitavelmente consequências negativas num futuro próximo);
  • Ausência quase total de integração ente o Desporto Escolar e o sistema federado (as exceções existentes assentam em projetos das federações que o Desporto Escolar tolera);
  • Ausência de ensino articulado do Desporto em contradição com o que acontece com o ensino da Música e da Dança;
  • Enormes dificuldades do sistema educativo (com graus diferentes dependendo dos estabelecimentos de ensino e das zonas do país) em responder positivamente às disposições legais de proteção aos atletas de Alto Rendimento, havendo adicionalmente, muitas vezes, desconhecimento de tais disposições legais e, noutras, resistências adicionais que em meu entender têm que ver com a já acima referida falta de cultura desportiva global no nosso país. Essa deficiência cultural revela-se ainda com uma particular acuidade no ensino superior com obstáculos levantados a atletas de Alto Rendimento numa fase da sua carreira em que é necessária uma dedicação especial para atingir rendimentos desportivos maximais;
  • Ausência de um real enquadramento (dificuldades levantadas por estabelecimentos de ensino superior e entidades patronais) favorável à manutenção de carreiras duais por períodos de tempo suficientemente longos;
  • Ausência ou número insuficiente de instalações desportivas especializadas adequadas em determinadas (muitas) modalidades desportivas;
  • Investimento público (Orçamento do Estado para a atividade desportiva) muito insuficiente não só para a realidade atual se tomarmos em linha de conta o valor económico do Desporto, mas sobretudo numa perspetiva de desenvolvimento desportivo que se deveria constituir uma prioridade nacional. Essa insuficiência revela-se não só na questão das infraestruturas desportivas especializadas como na capacidade em recrutar treinadores em quantidade e qualidade suficientes e a montagem de processos de apoio a carreiras duais e situações pós-carreira (competir com sistemas altamente profissionalizados de uma forma amadora);
  • Abordagens diferentes para o investimento público relativo ao Alto Rendimento (controlado pelo Governo) e à preparação olímpica (controlado pelo comité Olímpico);
  • Dispersão de organismos reguladores da atividade desportiva (COP, CDP, CPP, IPDJ) e quase total falta de coordenação entre os poderes centrais e autárquicos, com efeitos devastadores na capacidade de ser iniciado um processo de pensamento estratégico de desenvolvimento desportivo;
  • Total ausência crónica de pensamento estratégico a médio e longo prazo para o desenvolvimento desportivo e para o Alto Rendimento.
Outras questões poderiam ser aqui inventariadas como as relacionadas com o acesso do Desporto à comunicação social, sistemas de apoio ao voluntariado desportivo ou o mecenato desportivo.
 
Então com este cenário não é uma falta de pudor falar (exigir por vezes) em medalhas? Claro que sim! aplicam-se aqui as célebres expressões populares de "começar a construir uma casa pelo telhado" ou "fazer omeletes em ovos".
 
Já vimos também que todos estes problemas assentam, sobretudo, num défice cultural impeditivo de encarar o Desporto como um setor de atividade fundamental que necessita de muito maior atenção e investimento, sabendo-se que as mudanças culturais são as mais difíceis e demoradas de operar. Uma coisa é certa! Nenhuma mudança acontecerá se não for iniciado o processo e confesso, neste momento, não há sinais de que o mesmo se tenha iniciado ou esteja prestes a começar.
 
Apesar do acima enunciado às vezes também ganhamos medalhas ou temos conjuntos de classificações (como foi o caso no Rio de Janeiro 2016) estranhamente bons para a realidade do nosso "sistema" desportivo. Como se explica isto?
 
É que todos os dias há instituições e pessoas ao serviço dessas instituições ou individualmente, a trabalhar em prol do desenvolvimento desportivo, dando tudo o que têm e que não têm, numa atitude de superação de todo o tipo de adversidades com a ajuda circunstancial de realidades pessoais/familiares, ou ao nível do clube/autarquia e outros âmbitos potenciadoras do sucesso desportivo. Às vezes, essas micro realidades com os astros todos alinhados, produzem resultados desportivos de exceção. Mas não nos enganemos! O que nunca produzirão é o aumento da cultura desportiva global em Portugal nem a produção de escolas desportivas nacionais de referência única forma de passarmos a ter um Desporto sustentadamente melhor e mais forte.
 
Estamos condenados? Acho que sim. Estamos condenados a encontrar, mais cedo ou mais tarde, o caminho que nos leve à superação destas dificuldades ancestrais. Não há outra forma. Por onde devemos começar? Talvez lutar por que quem manda no Desporto sejam pessoas do Desporto.
 
Até lá um pouco de contenção em relação a isso das medalhas. Não é esse o caminho!
 
 

Olimpíada

Agora que chegaram ao fim os Jogos Olímpicos da XXXI olimpíada Rio de Janeiro 2016, tenho para mim que nunca houve tanta confusão entre os termos "Jogos Olímpicos" e "Olimpíada".

De resto, a própria designação adotada pelo comité Organizador Rio 2016 ("olimpíada", "olimpíadas") ajudou à festa.
 
Se é bem verdade que os termos "olimpíada" e "olimpíadas" se encontram dicionarizados como sinónimos de "Jogos Olímpicos", de facto essa aceção, difícil de explicar, tem sido desde sempre a utilizada no Brasil, mas não em Portugal e no resto do mundo.
 
Mas o mais curioso foi observar a imediata apropriação por pessoas com os mais variados tipos de responsabilidades que, sem pestanejar, passaram a utilizar o termo "olimpíada" referindo-se aos Jogos Olímpicos por osmose do que os nossos irmãos brasileiros fazem. E quando algumas dessas pessoas foram jornalistas de Órgãos de Comunicação Social influentes claro está que essa osmose se processou a um ritmo muito mais acelerado.
 
Como resolver a contradição que surge em chamar "olimpíada" a um evento cujo nome oficial é "Jogos da XXXI olimpíada" no caso do Rio de Janeiro? Se são os Jogos da olimpíada (espaço de tempo entre duas edições dos Jogos Olímpicos) não são, com certeza, a olimpíada em si.
 
Não sou contra a evolução da Língua portuguesa. De resto, hoje em dia ninguém pensaria em defender, por exemplo que escrevamos farmácia com "ph" como se fez durante muito tempo, mas essa dita evolução tem que ter uma lógica, digo eu, caso contrário cai-se no risco da degeneração tal como tem acontecido com as línguas mais faladas no mundo (entre as quais o português se inclui como sabemos).
 
Acho que estas mutações linguísticas necessitam de ser objeto de um pouco mais de reflexão da parte de cada um de nós e também de uma política ativa de defesa da língua por parte do Estado que nos representa.
 
É por isso que sempre que posso faço a minha parte.