quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Reconhecimento internacional e desenvolvimento das organizações gímnicas em Portugal

 


Reconhecimento internacional e desenvolvimento das organizações gímnicas em Portugal


(Este texto é uma adaptação de uma comunicação apresentada por mim no Congresso da Ginástica 2020)


Nos anos de 2017, 2018 e 2019, a Federação de Ginástica de Portugal (FGP) foi identificada pela Federação Internacional de Ginástica como a segunda num ranking mundial das “Federações meritórias” (ainda não é conhecido o ranking de 2020) construído com base num conjunto de critérios que importará aqui analisar e que revelam o grau de profissionalismo alcançado pela FGP ao longo dos anos.

Estes critérios são, a saber:
  • Participação nos Campeonatos do Mundo das diversas disciplinas (GAF/GAM, GR, ACRO, AER, TRA)
  • Participação na Gymnaestrada Mundial
  • Participação no Gym for Life Challenge Mundial
  • Participação no Congresso da FIG
  • Participação em Academias FIG (1 uma pontuação, 2 ou mais duplica a pontuação)
  • Participação num Simpósio ou Colóquio FIG
  • Participação em pelo menos 10 Taças do Mundo
  • Participação nas reuniões de atletas nos Campeonatos do Mundo
  • Organização de Campeonato do Mundo
  • Organização de Gymnaestrada Mundial
  • Organização de Gym for Life Challenge Mundial
  • Organização do Congresso da FIG
  • Organização de Academias FIG
  • Organização de um Simpósio ou Colóquio
  • Organização de um “Dia Nacional da Ginástica”
  • Organização de uma Gymnaestrada nacional
  • Organização de uma Taça do Mundo ou Challenge Cup
  • Cumprimento de prazos
  • Cumprimento de obrigações financeiras
  • Respeito dos prazos de inscrição para competições FIG (máx 10)
  • Respeito pelos prazos de inscrição no Congresso da FIG
  • Respeito pelos prazos de inscrição em Academias FIG
Existem também penalizações:

  • Incumprimento de prazos de inscrição (de cada vez)
  • Incumprimento de obrigações financeiras (de cada vez, max 6)
  • Sanção disciplinar imposta a um membro da federação
  • Violação das regras anti-dopagem
Que fatores que têm contribuído mais fortemente para este sucesso e como se poderá manter níveis semelhantes?

  • Ecletismo e quantidade na participação (basicamente participámos em tudo)
  • Dinâmica organizativa (Taças do Mundo, Academias FIG, sempre numa busca intencional e sistemática de atrair grandes eventos para Portugal. Campeonato do Mundo e CMGI de AER em 2018, World Gym for Life Challenge em 2021, isto no seio da FIG. Muitíssimas mais no seio da European Gymnastics como pude demonstrar no meu texto anterior)
  • Cumprimento de todas as obrigações (prazos de inscrição e pagamento)
  • Ausência de sanções disciplinares nos últimos anos
  • Ausência de violação de regras antidopagem nos últimos anos
Para manter o sucesso alcançado dever-se-á:

  • Manter a constância de organização de Taças do Mundo;
  • Continuar a trazer eventos de grande dimensão FIG para Portugal;
  • Manter os níveis de participação internacional;
  • Manter o nível de mecanização dos procedimentos internos que permitem o cumprimento de prazos perante a FIG;
  • Manter e melhorar, se possível, a educação para a prevenção de comportamentos abusivos e atentatórios da transparência nas competições de Ginástica bem assim como a implementação de uma sistema de avaliação de juízes
  • Manter e se possível melhorar a informação sobre a dopagem a ginastas, treinadores e pais.
   
Em contrapartida, os motores mais eficazes do desenvolvimento da Ginástica são, como se sabe, os clubes (as células fundamentais do Desporto) que têm graus de sofisticação organizativa e profissionalismo muito heterogéneos, e as Associações Territoriais de Ginástica (AT’s), que dependem financeiramente em quase cem por cento da FGP (com exceção das Associações dos Açores e da Madeira que recebem apoio dos respetivos Governos Regionais. Estas Associações Territoriais têm graus de sofisticação organizativa e de profissionalismo muito rudimentar e, nalguns casos, inexistentes.

As At’s estão descapitalizadas de recursos humanos, financeiros e logísticos e têm, por isso, muita dificuldade em inovar e em se desenvolverem e, consequentemente, em serem motores de desenvolvimento gímnico.

Isto, é justo dizê-lo, é parcialmente compensado pela extrema dedicação de um punhado de dirigentes e técnicos que, de uma forma voluntária não remunerada demonstram uma dedicação sem limites à causa da Ginástica.

A título de exemplo, se a FGP implementasse um sistema de financiamento às At’s que passasse por critérios semelhantes aos do programa da FIG, com as devidas adaptações, as pontuações iriam ser, em termos gerais, muito baixas, resultando no caso de algumas AT em níveis de financiamento próximo do zero.

A assimetria entre a estrutura da FGP e a das At’s é fácil de identificar e consensual. Do lado da FGP uma estrutura completamente profissional, do lado das AT’s estruturas descapitalizadas e maioritariamente amadoras.

Este problema constitui uma barreira ao desenvolvimento da Ginástica? Se assim for, é possível resolvê-lo?

Na minha opinião sim. É claramente uma barreira ao desenvolvimento da Ginástica. Contudo é necessário que, mais do que reconhecer que existe um problema (essa é a parte fácil), haja vontade de o resolver. E há seguramente soluções.

Uma delas (poderá haver outras imagino) foi estudada e apresentada às At’s pela Direção da FGP no ano de 2014.

Essa solução era a “reorganização do mapa associativo da Ginástica”

Essa reorganização proposta assentava nos seguintes princípios gerais e objetivos:
  • Promover o desenvolvimento da Ginástica a nível nacional;
  • Implementar programas técnicos uniformes em todo o território nacional;
  • Produzir oferta de eventos destinados aos escalões de Benjamins e Infantis em todas as disciplinas e todos os territórios do país;
  • Promover a realização, até ao final de 2016, com carácter regular em cada território, de pelo menos 3 eventos destinados aos escalões de Benjamins e Infantis em todas as disciplinas;
  • Aumentar o número de filiados individuais e coletivos em 30% até ao final do ano de 2016;
  • Estabelecer pontes e organizar eventos dirigidos aos clubes do Desporto Escolar e a clubes não filiados;
  • Diminuir o número total de Associações Territoriais (nos tempos que correm já não penso que isso seja uma inevitabilidade mesmo dentro do modelo proposto);
  • Aumentar a capacidade de intervenção técnico-administrativa das Associações Territoriais;
  • Dotar algumas Associações Territoriais de meios humanos adicionais a tempo inteiro.
Estes princípios gerais e objetivos implicavam um compromisso por parte da FGP em:
 
  • Dotar as Associações Territoriais (num máximo de 3) com um recurso humano especializado pago pela FGP e que desempenhará as funções de diretor/a Executivo/a da Associação Territorial (no território que abarque as regiões da Grande Lisboa e Península de Setúbal, esses recursos humanos serão os Diretores Técnicos da FGP, nas regiões autónomas, esses recursos humanos serão providenciados pelo Governo Regional);
  • Contratualizar com cada Associação Territorial, a organização de um conjunto muito específico e concreto de atividades, de acordo com os programas técnicos da FGP, assegurando ainda a viabilidade de alguns projetos específicos de cada território, de acordo com propostas devidamente fundamentadas;
 
Tinha um cronograma associado e implicava o estabelecimento do seguinte mapa associativo que foi determinado com base nos dados administrativos e demográficos de cada território:




Poder-se-ia dizer que parece um bom plano. Então o que falhou e porque é que falhou?

O que falhou foi a unanimidade das Associações Territoriais em rejeitarem qualquer proposta de reorganização associativa já que a mesma implicaria a extinção/agrupamento de Associações Territoriais (redução de 10 para 6). Cmo anteriormente afirmei, hoje em dia já não penso que esta fusão ou extinção seja uma inevitabilidade mesmo dentro do modelo proposto em 2014.

A alternativa seria uma imposição que foi de imediato rejeitada no seio da reflexão levada a cabo pela Direção da FGP, porque teria seguramente um efeito contrário ao objetivo da reorganização do mapa associativo que é o desenvolvimento da Ginástica.

Julgo que, se se pretender aumentar a capacidade operacional das At’s, se terá que voltar inevitavelmente a este tema. Caso contrário, se a Ginástica continuar a sua tendência de crescimento depois de nos livrarmos desta maldita pandemia e continuar também a tendência da complexificação da nossa modalidade e da sofisticação crescente exigida, designadamente na organização de eventos, a tal capacidade operacional das At’s terá tendência a se degradar ainda mais.

Julgo ser urgente que a comunidade gímnica reflita sobre este tema e o coloque de novo na ordem do dia, a bem da Ginástica. Haverá melhor altura doq ue um confinamento forçado, sem competições, para fazer este tipo de reflexões?

Não minha opinião é o momento ideal.

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