Só os mais distraídos pensariam que desconfinar seria tão fácil como confinar.
Confinar foi fácil. O medo é um excelente aliado de quem se propõe convencer os outros de que ficar em casa é a atitude mais adequada. E, portanto, cá como lá fora, as pessoas ficaram em casa. E, no geral, fizeram bem. É verdade que às vezes o fizeram sem qualquer espécie de racionalidade. Por exemplo: dar um passeio higiénico às 08h00 quando ninguém está na rua, alguma vez foi um comportamento de risco, pondo em causa a saúde própria ou dos outros? Quer se seja novo ou velho lesto ou trôpego? Está se vendo com facilidade que não. A malta cumpriu e ficou em casa. Nem todos, é verdade, mas a esmagadora maioria. Resultado: os ecrãs passaram a ser o centro da nossa convivialidade; os velhos deprimiram; a economia definhou; a miséria grassou.
No momento em que se começa a "desconfinar" surgem todo o tipo de reações. Os que cairam na miséria buscam um último fôlego que lhes permita retomar uma dignidade perdida; a ânsia de ar livre levou as pessoas ao cheiro do mar, do campo; a resistência ao regresso de uma rotina mais sofrida contra o cómodo trabalho no lar; um pesado sentimento coletivo de incertezas do que nos espera tomou conta de todos e cada um num frenesi de regras a cumprir, precauções a tomar, o receio do já famoso "novo normal" que ninguém sabe verdadeiramente o que vai ser.
Que identidade vamos descobrir na retoma das nossas atividades? Que formas de estar com outros, de respeitar (ou não) os outros, que prazeres vamos reencontrar ou descobrir? Que hábitos ganhar ou perder? Não sei!
Ao observar a forma como vai sendo feito o "desconfinamento" noto dois grandes sentimentos coletivos: receio e resposabilidade. Se concordo com a forma como isto está a ser feito? No essencial sim. Se há mensagens contraditórias que estão a ser dadas? Seguramente! E essas contradições poderão ter graves consequências no futuro? Estou convicto que sim e esperançado que não.
Dois exemplos: A partir do dia 18 de maio os restaurante voltarão a abrir com restrições obviamente necessárias, os supermercados sempre estiveram abertos porque precisamos de comer, Claro! Mas a atividade desportiva ao ar livre passou a ser permitida (que conceito mais estranho) em grupos de, no máximo cinco pessoas quando supervisionada, e duas pessoas sem supervisão. As creches vão reabrir, os cabeleireiros já reabriram, as lojas até 200m2 também mas a prática desportiva nos clubes e ginásios em instalações muito mais bem apetrechadas na sua esmagadora maioria, para lidar com o distanciamento social e as necessárias normas de higiene nem sequer mereceram até agora menção oficial.
Mensagens que passam: é mais perigoso praticar exercício físico ou atividade desportiva ao ar livre do que ir para dentro de um hipermercado; é mais perigoso praticar exercício físico ou atividade desportiva num clube ou ginásio do que ir a um restaurante ou a um cabeleireiro.
Será? Não me parece que, para além da evidência técnica e científica, até o simples bom senso resista a essa tese!
E continuam fechados (trancados!) muitos jardins e espaços (amplos) de lazer propriedade das Câmaras Municipais. Em nome de quê? Da saúde pública? Ora... do medo. Unica e exclusivamente reféns do medo!
Será? Não me parece que, para além da evidência técnica e científica, até o simples bom senso resista a essa tese!
E continuam fechados (trancados!) muitos jardins e espaços (amplos) de lazer propriedade das Câmaras Municipais. Em nome de quê? Da saúde pública? Ora... do medo. Unica e exclusivamente reféns do medo!
Quem perde? Todos!

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